Aquela sensação recorrente de pressão tomava conta do peito do rapaz...
Nada povoava a mente dele a não ser as lembranças de fatos a muito apagados na bruma do tempo e, ainda assim na escuridão daquele quarto, lágrimas escorriam por sua face. A melancolia era tanta que se tornava palpável, uma aura escura e pastosa que emanava do coração do garoto agravada pelos soluços escassos porém, de certa forma, constantes que escapavam daqueles lábios enrugados e curvados.
O peso em seus ombros, causado pela saudade de tempos que não voltariam, era insuportável. Ele recordava do tempo gasto em sua companhia, dos sorrisos compartilhados, dos olhares significativos e acima de tudo de sua presença... Mas isso tinha acabado, agora ele estava só, sozinho e mal-acompanhado.
A porta do quarto se entreabre vagarosamente, libertando momentaneamente o garoto de seu transe, abrindo caminho para que um pequeno fio de luz amarela e empoeirada adentrasse a solidão, juntamente com aquela voz tímida e em tom de desculpas.
- Você não pode ficar assim pra sempre- uma pausa para que o jovem respondesse e, como não houve uma resposta, a voz continuou -...vamos lá, converse comigo, o que há entre nós agora? Qual o problema?
Não que a voz deixasse de tocar o coração do rapaz mas, a simples presença daquela pessoa ali estava errada, o tempo de conversas teria terminado, não havia muito o que falar... No fundo a vontade dele era apagar o passado e escancarar aquela porta, para que as coisas voltassem a ser exatamente como um dia tinham sido, mas estava além do alcance dele... Várias coisas já haviam mudado e não teriam volta, o passado não muda.
-Não faz assim, fala comigo, por favor! -veio a voz, agora em tom suplicante do outro lado da porta.-para com isso, você não é assim, ambos sabemos disso!
A confusão em seu interior atinge seu ápice, ele sente lágrimas quentes descendo novamente por sua face, as lembranças voltam ainda mais vívidas que antes, agora misturadas com o profundo e estranho sentimento que ele ainda nutria em seu âmago. E, em meio a esse vórtice emocional o garoto se dirige em passos vacilantes até a porta entreaberta, espiando o pequeno vão ele encontra o que procura...
Aqueles pequenos olhos escuros, que significam tanto pra ele lá estão e, novamente eles se encaram, um último olhar significativo dado entre a fresta de uma porta. Ele percebe os pequenos lábios se curvarem e algo muda no brilho do olhar dela...
Ele fecha a porta e se recosta sobre ela, percebendo os pequenos soluços quase inaudíveis do outro lado seguido dos passos rápidos dela se afastando... Tudo havia acabado, toda a conversa que ela esperava havia acontecido em um só olhar, ele estava sozinho de novo... Sozinho e mal-acompanhado, assim ela podia seguir sua vida em paz...
E as memórias voltavam...
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